sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

chega de saudade, tom jobim e vinícius de moraes.

 Joao Gilberto(Tom Jobim/Vinicius) - Chega de Saudade


Vai minha tristeza,
e diz a ela que sem ela não pode ser.
Diz-lhe, numa prece
Que ela regresse, porque eu não posso mais sofrer.
Chega de saudade, a realidade é que
sem ela não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai.

Mas se ela voltar,
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei
Na sua boca,
dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos, e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim.
Não quero mais esse negócio de você longe de mim...

Essa é a versão de João Gilberto do disco Chega de Saudade que comentei no último post.

Bem, eu divido essa música em 3 partes: introdução, modo menor e modo maior(ou bossa nova).

Introdução.

No livro Chega de Saudade, de Ruy Castro, há uma passagem falando que Tom se inspirou num chorinho que sua empregada costumava assobiar quando foi começar a compor Chega de Saudade. Eu vejo uma influência exagerdamente forte do Choro em todo música, principalmente na introdução. Escute.
A introdução, poeticamente, está representando a fase da melancolia, da tristeza musical que antecede a Bossa Nova.

Modo menor.

A letra começa de um modo triste e sem esperanças, acompanhada por uma melodia em tom menor (ré menor, originalmente) e embalada pela introdução tão triste quanto.
Perceba isso na primeira estrofe quando Vinícius escreveu que: vai lá minha infinita tristeza e diz a ela que eu não posso nada ser sem ela... diz a ela, religiosamente, que ela volte urgentemente porque eu não posso mais sofrer... não aguento mais saudade, pois sem ela não há paz, beleza, só há a melancolia que não sai de mim.
E ainda toda essa tristeza representa a fase antecessora da Bossa.

"Vai minha tristeza,
e diz a ela que sem ela não pode ser.
Diz-lhe, numa prece
Que ela regresse, porque eu não posso mais sofrer.
Chega de saudade, a realidade é que
sem ela não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai."


Modo maior.

Então, a música dá uma virada magnífica. De um tom menor passa para um tom maior (ré menor para ré maior), acompanhada agora por uma letra repleta de alegria e esperança (Vale ressaltar que, musicalmente, tons menores trazem uma música triste e tons maiores uma música alegre). É aqui que começa a Bossa nova! É nessa troca de astral musical que quebra-se com os antigos padrões musicais para se mostrar uma nova fase linda da nossa música. A bossa nova se inicia aos 55 segundos dessa música!

Vinícius escreve agora que: aaah, se ela voltar que coisa linda seria. Quantos peixes existem no mar? Dane-se quantos. Eu darei mais beijinhos em você do que essa tal quantidade. Teu lugar é nos meus braços, regado a milhões de abraços e beijos. Tudo isso pra nunca mais você fugir de mim, nunca mais viver longe de mim.

"Mas se ela voltar,
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei
Na sua boca
,
dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos, e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim.
Não quero mais esse negócio de você longe de mim"...


Perceba que nessa última parte - na parte bossa nova - aparecem as identidades do nosso poetinha e do nosso maestro soberano.
90% da obra de Tom tem a mata atlântica no meio, tem a natureza, segundo o próprio. Perceba, então, o mar e os peixinhos na letra.
Vinícius adorava usar de diminutivos em suas músicas, poemas, sonetos, modos de se referir a alguém. Perceba os "peixinhos" e os "beijinhos".

Outro detalhe interessante. A música começa mostrando a distância entre as duas pessoas e exatamente no final da música essa distância é anulada com um: "Não quero mais esse negócio de você longe de mim"

É impressionante como após 50 anos da composição dessa obra ela permanece surpreendente e intocável.

Um espetáculo de Vinícius e Tom.

prelúdio a chega de saudade.

Comecei a escrever mas parei.
Não tem como fazer uma análise de Chega de Saudade sem antes falar um pouquinho da história da Bossa Nova. Mas bem pouquinho mesmo.

Há exatos 50 anos e 5 meses era lançado um compacto do violonista baiano João Gilberto que trazia a Chega de Saudade entre suas faixas. Ele já havia participado, tocando seu violão, uns meses antes no disco da Elizeth Cardoso, Canção do Amor Demais, que também já trazia a música, mas eu prefiro ficar do lado de que foi no LP de João que a bossa foi concebida, que a bossa foi definida.

Antes desse disco, era tocado muito o samba e o choro. Década de 30, 40. Esses gêneros pediam instrumentos de alto volume e dançantes como reco-reco, pandeiro, cavaquinho, surdo, cuíca e etc. Além dos instrumentos, os cantores desses gêneros também tinham essa característica do cantar alto, alegre, contagiante.

Em meados da década de 50, um grupo de jovens músicos e intelectuais costumavam se reunir no apartamento da cantora Nara Leão, em Copacabana. Eles queriam tocar o samba de outro jeito. Queriam algo mais moderno. O grupo contava com Carlinhos Lyra, Bôscoli, Menescal, Billy Blanco, Sérgio Ricardo, ..., e João Gilberto.
Esse novo método de sambar foi celebremente introduzido por João no seu disco Chega de Saudade.

Ele sintetizou toda aquela instrumentação do samba, que eu já comentei, em seu violão, acompanhado por uma bateria, um contra-baixo, piano e alguns instrumentos de sopro e arco. Tem-se agora um samba mais cool. O jazz americano da época (Cole Porter, Gershwin, Getz etc) também teve sua influência na experiência de Gilberto, cedendo acordes dissonantes, nonas, décima terceiras e primeiras com sustenidos e bemóis.

Instrumentação influenciada pelo jazz, acordes dissonantes, letras inteligentes, cantar baixinho...

...Eis a Bossa Nova.

Escrevi esse ultra resumo pra mostrar algumas informações necessárias pra análise de Chega de Saudade. Indico o documentário Coisa Mais Linda - Histórias e Casos da Bossa Nova, de Paulo Thiago, para maiores aprofundamentos. Riquíssimo de informações e é todo levado pelo Carlos Lyra e Roberto Menescal.