sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

carta ao tom 74, vinícius de moraes e toquinho.

(Para o amigo Felipe)



Carta ao Tom 74

Rua Nascimento Silva, 107
Você ensinando pra Elizeth
As canções de 'Canção do Amor Demais'
Lembra que tempo feliz

Ah! que saudade
Ipanema era só felicidade
Era como se o amor
Doesse em paz

Nossa famosa garota nem sabia
A que ponto a cidade turvaria
Esse rio de amor que se perdeu

Mesmo a tristeza da gente era mais bela
E além disso se via da janela
Um cantinho do céu e Redentor

É meu amigo, só resta uma certeza
É preciso acabar com essa tristeza
É preciso inventar de novo o amor

Eis a famosa cartinha do poetinha musicada por Toquinho escrita pro Tom. Ela tem um quê de saudosismo fortíssimo e é cheia de esperança.

A primeira coisa interessante a se notar é a introdução da música. Não é novidade pra nenhum admirador da Bossa, não? A introdução dela é praticamente idêntica à introdução de Corcovado, de Tom Jobim, claro, pra dar um tom de Tom na música. A única diferença é o final que as duas melodias tomam: a de Corcovado termina em tom menor e do Toquinho cai em tom maior no final, deixando-a mais sorridente.

O saudosismo da música aparece no primeiro verso quando Vinícius fala da rua carioca em que Jobim morou durante bom tempo e que foi palco de criação de várias obras dele (Corcovado, por exemplo) e também um "berço" alternativo da Bossa.

E foi no apartamento da Rua Nascimento e Silva, nº 107, onde Tom mostrou pra Elizeth Cardoso a canção Chega de Saudade, analisada anteriormente, que mais tarde seria a faixa destaque de seu disco "Canção do Amor Demais". Aliás, vale lembrar que esse disco foi o primeiro rascunho da Bossa Nova, já que contou com o violão de João Gilberto e com a própria Chega de Saudade.

E a exaltação de um passado não muito distante (uns 20 anos atrás) continua com Vinícius escrevendo que, Lembra, Tonzinho, que tempo feliz? Que saudade daquela Ipanema tranquila, inspiradora por demais.
É óbvia a referência aos tempos atuais de violência na Cidade Maravilhosa, contrastando com os de antigamente.
Naquele tempo o amor quando doía, doía em paz.

Como falar em Ipanema e não recordar da Garota que vem e que passa, com um doce balanço a caminho do mar?
Ela aparece logo na próxima estrofe:

"Nossa famosa garota nem sabia
A que ponto a cidade turvaria
Esse rio de amor que se perdeu"


Tom foi um grande amante da natureza e de toda a sua(natureza) poesia. Ele via poesia em tudo. De uma fonte de água na terra jorrando a um vôo de um urubu.

Ele, junto com Vininha, não imaginava a que ponta a cidade turvaria e que todo aquele Rio (de Janeiro) de amor se perderia em meio a tanto concreto. Concreto esse que é o protagonista do verso

"Mesmo a tristeza da gente era mais bela
E além disso se via da janela
Um cantinho do céu e Redentor"


Vinícius escreveu isso por cusa da volta frustrada de Tom de Nova Iorque, quando Ele se deparou com os vários prédios que a construtora Sérgio Dourado havia construído perto do seu, tapando a vista que ele tinha pro Cristo Redentor e até mesmo pro Céu, da varanda de seu apartamento.

E a música termina com uma frase belíssima do poetinha:
"É preciso inventar denovo o amor."
Espetacular.
É preciso inventar denovo toda a poesia arrodiava os cariocas da década de 50 e 60.
É preciso inventar denovo o amor tão esquecido nos tempos de verticalização da Cidade Maravilhosa.

Não termina aqui, não. Tom, Chico e Toquinho fizeram a "Carta DO Tom", que é uma resposta linda à "Carta AO Tom".
Deixo pra próxima postagem.

Um espetáculo de Toco e Vinícius.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

desafinado, tom jobim e newton mendonça.




Prelúdio da letra:

Quando eu vou cantar, você não deixa
E sempre vem a mesma queixa
Diz que eu desafino, que eu não sei cantar
Você tão bonita
Mas sua beleza também pode se enganar.

Letra:

Se você disser que eu desafino amor
Saiba que isso em mim provoca imensa dor
Só privilegiados tem ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu...

Se você insiste em classificar
Meu comportamento de anti-musical
Eu mesmo mentindo devo argumentar
Que isto é Bossa Nova, que isto é muito natural

O que você não sabe nem sequer pressente
É que os desafinados também têm coração
Fotografei você na minha Rolley-Flex
Revelou-se a sua enorme ingratidão

Só não poderá falar assim do meu amor
Ele é o maior que você pode encontrar, viu!
Você com a sua música esqueceu o principal:

Que no peito dos desafinados
No fundo do peito bate calado
É que no peito dos desafinados
Também bate um coração.


Desafinado, escrita no final da década de 50, bem como Chega de Saudade, definiu também a Bossa.
Segundo o próprio Tom, ela é uma espécie de crítica à especialização da música, à música bem feitinha, aos padrões de composição até então seguidos.

Pra análise da música, vou assumir uma metáfora que não sei se foi intencional ou não do Newton Mendonça na letra: a relação conflituosa de um casal apresentada na música seria a relação entre o músico bossanovista e os críticos de música da época.

A crítica aparece já no prelúdio que, diga-se de passagem, infelizmente, é raramente executado.

"Quando eu vou cantar, você não deixa
E sempre vem a mesma queixa
Diz que eu desafino, que eu não sei cantar
Você tão bonita
Mas sua beleza também pode se enganar
."


A parte em negrito é o primeiro contato conflituoso entre o músico e o crítico.
A bossa nova incorporou muito a dissonância do jazz. Isso, pra ouvidos leigos - ou desacostumados -, dava a impressão de que havia notas destoando, que havia uma desafinação. E foi daí que surgiu o nome da música.
A metáfora da relação aparece mais forte quando a Beleza da mulher do músico que desafina se torna metaforicamente a inteligência, o intelecto do crítico.
Perceba:

"Você tão bonita
Mas sua beleza também pode se enganar"

"Você tão inteligente
Mas sua inteligência também pode se enganar"

E realmente se enganava. Não havia desafinação nenhuma.

Na primeira frase da música aparece um detalhe genial.

"Se você disser que eu desafino amor"

Justamente na sílaba "De" de Desafino e na palavra "amor", Tom dá uma "desafinada" proposital, para que o ouvinte entre - ou não - na idéia da música.
Em termos técnicos, as notas "afinadas" ou "normais" dessa frase seriam essas:

B -C# D# E D# -C# - - -B -C# E - - -C#
Se você disser que eu de sa fino amor

Porém, Tom a musicou assim:

B -C# D# E D# - C# - - - C -C# E - - -C
Se vo cê disser que eu de sa fino amor

Essa tal desafinada dele foi simplesmente um aumento de meio tom na sílaba "De" e uma queda de meio tom na palavra "amor".
Trocas essas que foram devidamente "corrigidas" aumentando em meio tom a décima primeira do acorde que as acompanha: passou de F#7 para F#7(11#).

O verso termina com o homem falando pra mulher - ou o músico falando pro crítico - que somente privilegiados possuem um ouvido igual ao seu, ao ponto de conseguir notar essa quebra na música. E ele, mero músico, possui apenas o ouvido que Deus lhe deu e que tal ouvido se agrada com esse novo estilo musical chamado Bossa Nova.

No segundo verso aparece denovo uma crítica ao crítico:

"Se você insiste em classificar
Meu comportamento de anti-musical
Eu mesmo mentindo devo argumentar
Que isto é Bossa Nova, que isto é muito natural"


Maravilha, não?

Mesmo você insistindo em dizer que meu jeito de compor é totalmente anti-musical, anti-padrões, eu devo te dizer que Isto é Bossa Nova, meu amigo, tudo isto é muito natural...

A tal Rolley-Flex, mostrada no 3º verso, era uma máquina fotográfica daquelas que todos queriam ter.
Quando o homem fotografa sua mulher, na hora da revelação o que se revela é somente a ingratidão dela em não perceber sua real intenção musical.

Eu, sinceramente, não gosto muito do último verso da música.
Ele é bonito, "No fundo do peito dos desafinados também bate um coração, mesmo que tímido, calado". Ficou meio piegas.
Eu acharia melhor que houvesse uma continuação da insatisfação do músico criticado. Não me atrevo a palpitar um outro final.
Porém, nada que tire toda a genialidade dessa obra.

Um espetáculo da música de Tom e da letra de Newton.